Será que a semana de 4 dias vai pegar? Empresas e países ao redor do mundo estão apostando nessa modalidade de trabalho que traz alguns ganhos, de acordo com os programas que já acontecem mundo afora. A ideia é reter talentos, combater os problemas de saúde mental que se multiplicam no ambiente corporativo desse pós-pandemia e formar equipes mais eficientes.
A economia de recursos em ter um escritório funcionando menos dias no mês é outro incentivo para as empresas. Em um teste feito em 2019, a Microsoft Japão concluiu que gastos administrativos, como o uso de papel e energia, diminuíram drasticamente quando os funcionários tinham três dias de folga. O experimento indicou ainda que os funcionários estavam mais felizes e 40% mais produtivos.
Isso parece loucura, mas a mudança para uma semana de trabalho de quatro dias tem alguns ângulos e potenciais beneficiários. Em primeiro lugar, espera-se que, com a medida, os funcionários possam reduzir o estresse, a fadiga e o esgotamento.
E, para os empregadores, estudos mostram que os trabalhadores podem ser tão produtivos ou mais em 35 horas quanto em 44, isso porque durante o expediente acabam se distraindo menos do que o usual e estão mais descansados, acelerando a produtividade.
Diante dos benefícios comprovados, organizações e até governos já pensam em adotar a semana de trabalho de quatro dias. Na Nova Zelândia, durante a crise da Covid-19, a primeira-ministra, Jacinda Ardern, levantou a possibilidade de encurtar a semana de trabalho como forma de dividir empregos, incentivar o turismo local, ajudar no equilíbrio entre vida profissional e familiar e aumentar a produtividade.
Por aqui, algumas empresas que estão experimentando o final de semana prolongado como parte da rotina. Zee.Dog, que adotou o modelo em março de 2020, a startup mineira especializada em análise de dados, Crawly, que opera com três dias de folga para seus funcionários desde sua fundação, em 2018, e a martech Winnin, que fez uma pesquisa entre seus funcionários e conclui que sextar antes da hora aumentou em 17% o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Mas será que a semana com quatro dias na semana vai ganhar ainda mais força?
Como é a semana de trabalho de quatro dias?
Trata-se da redução da jornada de trabalho de cinco para quatro dias. No entanto, alertam os especialistas, uma semana de trabalho de quatro dias não deve ser confundida com uma programação extensa de trabalho durante esse período. Eles destacam que os benefícios dessa política não serão observados se o empregador colocar uma carga horária excessiva nos dias úteis.
Uma verdadeira semana de trabalho de quatro dias exige que funcionários de tempo integral trabalhem cerca de 35 horas em vez de 44 – no caso da legislação brasileira cuja carga horária semanal é de 44 horas. Lembrando que a semana de quatro dias sempre foi um tópico popular no discurso do trabalho flexível, mas, até então, poucas eram as organizações pelo mundo que, de fato, adotaram o sistema.
Benefícios ao adotar a política
A reviravolta do mundo do trabalho mudou o cenário restritivo das organizações com relação a essa política. Se até o home office era um tabu para muitas empresas, quem dirá a semana de quatro dias de trabalho.
A flexibilização do ambiente de trabalho, acentuada no isolamento social, descortinou os benefícios dessa prática. Pense: semanas de trabalho mais curtas reduzem o número de faltas (absenteísmo) por doença, assim como atrasos justificados como a ida a médicos e dentistas. Ademais, um dia a menos de trabalho no escritório representa um ganho nas despesas da organização com água e luz, por exemplo.
Portanto, embora a ideia soe estranha num primeiro momento, é possível que pessoas trabalhem menos com o mesmo salário, melhorando resultados financeiros do empregador. Abaixo, detalhamos outros benefícios desse tipo de prática:
1. Bem-estar do funcionário
O aumento de condições de saúde mental na população mundial é uma realidade acentuada após a pandemia. Meses de ansiedade, com contato restrito de colegas, amigos e familiares, elevaram custos das empresas com saúde mental.
Portanto, quaisquer medidas que protejam a sanidade dos trabalhadores precisam ser seriamente consideradas. Este é o caso da redução de um dia na jornada de trabalho. Com isso, colaboradores teriam mais tempo para se recuperar de uma semana estressante, liberando energia para buscar outros hobbies e interesses.
2. Uso mais eficiente do tempo
Os funcionários gastam menos tempo em tarefas ineficientes, como reuniões, e são menos propensos a se distrair com mídias sociais ou pausas excessivas.
3. Satisfação do funcionário
Com menos estresse e um maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, trabalhadores felizes se envolvem mais com o trabalho. Esse sentimento de pertencimento no trabalho carrega também mais motivação e criatividade à organização.
4. Colaboração
A ênfase na eficiência tende a aproximar as equipes e as áreas, pois há menos tempo a perder com disputas e os objetivos de toda a equipe são mais focados.
5. Benefícios ambientais
A semana de trabalho de quatro dias representa menos pessoas se deslocando entre suas residências e ambientes de trabalho, o que reduz de forma crítica a pegada de carbono do planeta.
Isso sem falar na diminuição do uso de ar-condicionado dos escritórios, o que também reduz os níveis de dióxido de carbono (CO2).
6. Menos custos indiretos
Se todos os funcionários estão fora do escritório um dia por semana, isso reduz todas taxas de manutenção do escritório, especialmente eletricidade.
7. Mais inovações
Ao encorajar novos métodos de economia de tempo, colaboradores estão mais propensos a estudar e trazer inovação à organização.
Cases de empresas que adotaram a política
Após testar o modelo de quatro dias úteis por semana em um país famoso pelo excesso de trabalho, a Microsoft do Japão informou que o faturamento por funcionário aumentou 40% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Em agosto de 2019, foi a vez da Microsoft Japão resolver investir na ideia da redução em um dia da jornada de trabalho. Além disso, outras medidas foram tomadas concomitantemente: as reuniões foram encurtadas para, no máximo, 30 minutos e as pessoas foram incentivadas a se comunicar online em vez de presencialmente.
Ademais, nove em cada dez funcionários disseram preferir a semana de trabalho mais curta. E houve alguns benefícios colaterais adicionais também, incluindo redução de 23% no uso semanal de eletricidade no escritório e redução de 59% no número de páginas impressas.
O Perpetual Guardian, uma empresa de serviços financeiros com sede na Nova Zelândia, é talvez um dos principais estudos de caso da semana de trabalho de quatro dias. Dois pesquisadores foram contratados para fazer a análise de dados dessa experiência e o que eles encontraram mostra um apoio positivo para esse tipo de política:
- O estresse diminuiu 7%;
- A satisfação geral com o trabalho aumentou em 5%;
- O equilíbrio de vida pessoal x trabalho aumentou de 54% para 78%.
Na Espanha, o governo espanhol concordou com uma carga horária semanal de 32 horas, ao longo de três anos, sem corte na remuneração. O programa piloto pretende reduzir o risco dos empregadores com um auxílio governamental que paga a diferença quando os colaboradores optarem pela semana de quatro dias.
Os Emirados Árabes Unidos começaram 2022 como a primeira nação no mundo a adotar uma jornada semanal de quatro dias e meio. O governo do país e as entidades locais vão operar em uma jornada semanal de quatro dias e meio, com o fim de semana começando ao meio dia da sexta-feira até o domingo.
O que pode dar errado
Um estudo recente na Nova Zelândia mostrou que nem sempre a semana de trabalho de 4 dias significa mais tempo off para os funcionários. Essa pesquisa mostrou que a opção feita por empresas daquele país aumentou o stress dos profissionais, uma vez que as cobranças e demandas continuam iguais, só que concentradas. Segundo os pesquisadores neozelandeses, reduzir a carga horária precisa vir junto com uma mudança no esquema de trabalho e na quantidade de entregas que cada trabalhador tem.
Para um pesquisador brasileiro uma alternativa seria aumentar o expediente diário. “Se a carga horária for de 10h por dia, é possível uma compensação sem perda de produtividade, os custos de prestação de serviço não se alterariam”, diz Uranio Bonoldi, especialista em tomada de decisão e professor do Executive MBA da Fundação Dom Cabral. Essa mudança, no entanto, só seria possível com uma nova legislação e, no momento, os projetos em tramitação no Congresso brasileiro para redução da jornada estão longe de chegar à conclusão.
Vale lembrar que cada país, cada empresa e cada pessoa possui preferências e modo de trabalhar diferentes. Você precisa entender se a política de 4 dias é (ou poderia ser) interessante para sua empresa.
É muito válido fazer um pré-planejamento de como será aplicada essa mudança no método de trabalho. Também indicamos fazer uma análise e pesquisa interna com seus colaboradores sobre o que acham da política e das possíveis mudanças descritas no pré-planejamento. Afinal, os colaboradores são tão importantes quanto gestores e precisam estar cientes e engajados caso essa mudança aconteça.
E falando sobre marca empregadora e recrutamento e seleção, implantar a carga horária de 4 dias de semana pode ser um diferencial interessante para conquistar talentos para sua empresa.
Esperamos que a gente tenha te ajudado! Se precisar de algo a mais ou tirar dúvidas, pode falar conosco.